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Quem ainda se importa com o meio ambiente? O paradoxo da questão ambiental no Brasil

  • Edson Grandisoli
  • 25 de fev.
  • 3 min de leitura

Dados recentes mostram queda no interesse por meio ambiente e sustentabilidade entre jovens e adultos. Entenda o que isso revela sobre educação ambiental, escolas e engajamento climático.




Você já sentiu vontade de pisar na grama logo depois de ler uma placa dizendo “Não pise na grama”? Esse impulso tem nome: efeito bumerangue. Quanto mais alguém manda, pressiona ou dramatiza, maior pode ser a reação contrária. Em vez de gerar engajamento, podemos provocar afastamento.


Talvez isso ajude a explicar um dado preocupante: mesmo com mais informação,  discursos, campanhas e alertas sobre a crise climática e outros desafios socioambientais, o interesse pelo meio ambiente e sustentabilidade parece estar diminuindo.


Pesquisas recentes mostram que menos de 15% dos jovens entre 10 e 14 anos consideram “sustentabilidade e meio ambiente” importantes para a vida (figura 1). Entre adultos, cerca de 50% dizem estar muito preocupados com o tema, número que caiu 11 pontos desde 2020 (figura 2).









Figura 1: Percepção da importância no desenvolvimento para a vida retirado do Relatório Nacional Semana da Escuta dos Adolescentes (2024).




Figura 2: Preocupação sobre meio ambiente e mudanças climáticas dos brasileiros (2020, 2021, 2022 e 2025) da Pesquisa Mudanças Climáticas na Percepção dos Brasileiros (2025).


Aparentemente, quanto mais se fala, menos as pessoas se importam... Onde estamos falhando?

O que os dados revelam sobre educação socioambiental no Brasil?


Para quem atua há décadas com educação socioambiental, esses números geram perplexidade. Mas também confirmam uma percepção crescente: muitas instituições, inclusive escolas, têm dado cada vez menos prioridade à sustentabilidade como um valor institucional.


Há, claro, muitas escolas e instituições que têm se dedicado à sustentabilidade de forma legítima, promovendo transformações permanentes e continuadas em dimensões como espaço, currículo, gestão e comunidade. Isso certamente faz diferença na vida e nas escolhas dos jovens hoje e no futuro, para além de estarem somente preocupados.


Mas ser sustentável em um oceano de insustentabilidade não é uma tarefa simples.

Não basta olhar para dentro. A escola é formada por pessoas e contextos que, muitas vezes, dificultam ações de sustentabilidade. Que escola nunca enfrentou o desafio de destinar corretamente seus resíduos? Ou de buscar a parceria e o protagonismo das famílias sem muito sucesso?


Quantas escolas conseguem, de fato, transformar a sustentabilidade em cultura institucional?


Sustentabilidade não é atividade, é valor


Para mudar, para ser diferente, é preciso perseverança e investimento de recursos e energia. Ter um “comitê de sustentabilidade” nunca será suficiente se ele for desconectado do todo. Sem apoio, sem recursos, sem integração e sem reconhecimento, não é à toa que as pessoas passam a ser chamadas de “ecochatas”. 


Cultura só existe - e se estabelece - nas relações e na consciência de que sustentabilidade não é um luxo, um “puxadinho pedagógico”, ou uma forma de greenwashing para aumentar o número de matrículas. Ela deve ser um valor essencial da escola, das pessoas e das sociedades em toda a sua diversidade.


Da mesma forma que Matemática e Português sempre foram (e sempre serão) pilares formativos, aprender desde cedo a agir coletivamente pela qualidade ambiental e justiça climática deveria ser parte fundamental da formação cidadã. 


A escola é parte do problema, ou pode ser parte da solução?


Os números trazem inúmeras reflexões para além dessas. Acredito que o essencial é, a partir deles, refletir sobre o que precisa ser mudado ou melhorado.


  • Currículo?

  • Práticas pedagógicas?

  • Coerência institucional?

  • Metodologias?

  • Discursos e práticas que fazem sentido?


Trazer a questão socioambiental de forma integrada exige repensarmos a escola como um todo, seu papel e sua função social. Em tempos de emergências socioambientais, ela não pode compactuar e perpetuar práticas que degradam o planeta e aumentam desigualdades. 


A boa notícia para quem se dedica a essas questões quase filosóficas é que há muito ainda a ser feito. No meu caso em particular, que atuo há mais de 30 anos nesse campo desafiador, é ter a certeza que muita gente também está indignada e assustada com essas pesquisas e crê que a escola pode realmente se tornar o centro da construção de uma nova lógica civilizatória: mais simples, afetuosa e minimalista.


A pergunta que fica é: vamos continuar gritando “não pise na grama” ou finalmente vamos ensinar por que vale a pena cuidar dela?








Dr. Edson Grandisoli

Diretor educacional da Reconectta e Escolas pelo Clima

 
 
 

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