Educação Climática: breve guia de ação e engajamento
- Edson Grandisoli
- 11 de mar. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 21 de jul.
Descubra como iniciar a educação climática na escola com cinco orientações práticas para engajar estudantes, educadores e toda a comunidade escolar.
Texto atualizado em: julho de 2026

A educação climática é uma abordagem que prepara estudantes, educadores e comunidades escolares para compreender, enfrentar e se adaptar à crise climática por meio da aquisição de novos conhecimentos, desenvolvimento de competências, valores e realização de ações concretas. Neste guia, reunimos cinco etapas para iniciar esse trabalho na escola de forma estruturada.
Por que a educação climática é urgente?
As mudanças climáticas são um problema global, complexo e sistêmico. Ela não respeita fronteiras, e suas consequências afetam de diferentes maneiras os ambientes, os seres vivos e a humanidade. O Banco Mundial estima que mais de 200 milhões de pessoas terão que se deslocar buscando melhores qualidades ambientais e de vida até 2050. Migrações em massa são uma nova forma de crise humanitária que o mundo já tem que lidar, o que pode desencadear novos conflitos geopolíticos.
Conhecer essa realidade, posicionar-se política e criticamente, bem como colaborar na busca por soluções deve ser papel de todo o cidadão dentro de suas possibilidades, considerando uma perspectiva globalizada e solidária. Acredito que um dos principais caminhos para construir novas visões e concepções de presente e futuro esteja diretamente relacionado a um movimento ainda incipiente: a educação climática.
Dentro dessa visão holística, de uma crise que não respeita fronteiras e culturas, emerge a importância do novo tripé da sustentabilidade: participação, colaboração e corresponsabilização. Ou seja, a busca por soluções para esse desafio global passa, em diferentes instâncias, escalas e intensidades, a ser responsabilidade de todos e todas. Dessa forma, sentir-se responsável, bem como colaborar e participar como parte da solução, parecem ações cada vez mais importantes.
Ainda não existe uma definição exata do que é e como desenvolver a educação climática. E talvez nunca exista pela multiplicidade de realidades. De forma geral, entretanto, educar para o clima visa garantir que as pessoas tenham acesso a informações científicas de qualidade, capazes de promover o desenvolvimento de valores, atitudes, competências e comportamentos que colaborem no enfrentamento da crise global climática.
Apesar de poder soar como uma ação individual, nunca estivemos à frente de um desafio que exige um posicionamento político tão assertivo. Isso porque, antes de ser um problema ambiental, a mudança climática é um problema social, político e diplomático. Basta acompanhar de perto as muitas COPs já realizadas para compreender a importância das dimensões políticas nacional e internacional.

Vale destacar que, para além do desafio já ser grande o suficiente - causando, muitas vezes, paralisia, ansiedade, desesperança e conformismo - existem outros fatores que dificultam ainda mais a tarefa de colocar em prática ações climáticas efetivas. Grupos que negam a contribuição da Ciência, em especial aqueles que ainda negam a responsabilidade humana na crise climática, criam comunicações tão persuasivas quanto enganosas, colocando em cheque a possibilidade de caminharmos de forma mais acelerada na busca por soluções.
5 etapas para começar a trabalhar educação climática na escola
1. Ouça os estudantes
Existe uma tendência quase irresistível, em particular para professores especialistas, em apresentar gráficos, dados, imagens, relatórios, depoimentos, vídeos, etc. Esse, entretanto, tem se mostrado um caminho pouco interessante e mobilizador, além de poder acentuar ainda mais sentimentos como medo e impotência.
“O que vocês sabem sobre a mudança climática?”
“Em que acreditam? Como se sentem em relação a esse desafio?”
Essas são apenas algumas questões que podem guiar um bom início de conversa. Realizar esse levantamento dos conhecimentos e olhares prévios dos estudantes trará dicas de caminhos possíveis de trabalho coletivo, bem como estabelecer canais de diálogo sobre a temática de maior qualidade.
Parta de conhecimentos, olhares e percepções preexistentes para criar novos conhecimentos significativos.
2. Parta do contexto local
Não existe fórmula pronta para o enfrentamento da crise climática via educação. Cada ação depende do que é relevante – e talvez urgente - para a escola e comunidade neste momento.
Estimule um olhar reflexivo, crítico e investigativo entre os estudantes. Realize pesquisas, organize rodas de diálogo, crie canais digitais de comunicação com a comunidade. Toda percepção é importante, e criar ações com base nos olhares da comunidade colabora no engajamento e pertencimento.
Ou seja, estabelecer conexões com a realidade próxima garante sentido e gera proatividade.
3. Defina um objetivo
Onde estamos agora e onde queremos estar ao final deste ano com relação à ação climática que queremos desenvolver?
Defina um objetivo claro e possível. Trabalhar com uma perspectiva de curto ou médio prazo colabora com a definição de um objetivo alcançável. Pequenos passos e pequenas (ou grandes) vitórias encorajam a todos, aumentando a corresponsabilização e o desejo de fazer mais.
Seja prático, realista e assertivo.
4. Foque nas soluções
Compreender o desafio climático é fundamental. Entretanto, é fundamental também compreender que existem soluções viáveis e ao alcance da comunidade escolar para o enfrentamento da crise climática.
Ou seja, não é preciso “reinventar a roda” para agir a favor do clima na escola. Hortas agroecológicas, plantio de mudas, gestão de resíduos, água e energia são apenas alguns caminhos que dialogam com a perspectiva de uma educação climática.
O foco no problema, o catastrofismo, geram medo, imobilismo e indiferença.
5. Busque parcerias
Nem sempre os educadores e as escolas dão conta de todas as variáveis, em especial sobre um assunto tão amplo e complexo como as mudanças climáticas.
Ninguém sabe tudo e, nesse caso, parece cada vez mais importante considerar as parcerias externas à escola como pontos-chave para o sucesso das ações climáticas.
Entre em contato com especialistas, busque apoio no trabalho de diferentes instituições de pesquisa e seus respectivos pesquisadores. Associe-se a movimentos e grupos que têm como objetivo colaborar na formação dos educadores e dos estudantes, fomentando ação climática, como é o caso do Movimento Escola pelo Clima.
Não existem soluções para problemas complexos e sistêmicos sem interdisciplinaridade e colaboração.
Educação Climática também combate desinformação
O Fórum Econômico Mundial, por meio do relatório Riscos Globais 2024, pela primeira vez na história, elegeu a desinformação (disinformation and misinformation) como o principal risco global para os próximos 2 anos. Isso reforça a tese da importância da Ciência e de como comunicá-la da melhor forma possível, o que costuma não ser tarefa simples para boa parte da comunidade científica, ainda muito habituada a dialogar por meio de linguagem pouco acessível e restrita a seus pares.
Ainda, nos últimos anos, o avanço da inteligência artificial e das redes sociais ampliou o alcance de conteúdos falsos ou distorcidos sobre mudanças climáticas. Nesse contexto, a educação climática também passa a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da alfabetização midiática, do pensamento crítico e da capacidade de avaliar evidências científicas confiáveis. Mais do que transmitir informações, ela prepara estudantes para navegar em um ambiente informacional cada vez mais complexo.
Como falar de educação climática sem gerar medo?
Na mesma direção, mas de maneiras distintas, as diferentes formas de comunicar a crise climática para os jovens em idade escolar também precisam ser rapidamente repensadas, lapidadas e amplificadas.
A ansiedade climática (ou ansiedade ambiental) já é uma realidade entre os jovens, e também entre muitos adultos incluindo educadores e educadoras. A abordagem catastrófica, que culpabiliza as pessoas pelos males do mundo, e pouco propositivas, não deveriam ter lugar em uma boa comunicação climática. Isso não significa que devemos “poupar” os jovens da realidade e da dimensão da crise que estamos vivendo. Devemos, sim, buscar abordagens mais inovadoras, criativas e que despertem o desejo de agir, hoje, em parceria com a comunidade escolar e familiares.
Sabemos que essa não é uma tarefa simples, mas ela é urgente e deve chegar aos jovens por meio de estratégias considerando-se as educações formal, não formal e informal. Pode parecer pouco, mas segundo o Censo Escolar (2025), estamos falando de um universo de mais de 36 milhões de jovens matriculados na Educação Básica pública.
Além disso, é fundamental formar educadores dentro de uma nova perspectiva para o enfrentamento da mudança climática. O mesmo censo fala em mais de 2,4 milhões de docentes na educação básica brasileira. Um universo representativo como este, e com grande poder de mobilização e transformação, não pode ser ignorado.

Faça parte do Movimento Escolas pelo Clima
A educação climática não depende de respostas prontas, mas da disposição para aprender, experimentar e agir coletivamente. Cada escola pode encontrar seu próprio caminho, desde que coloque o clima, a justiça socioambiental e o protagonismo estudantil no centro da aprendizagem.
Se você deseja aprofundar esse trabalho, conheça o Movimento Escolas pelo Clima e faça parte de uma comunidade que reúne milhares de educadores comprometidos com a formação de estudantes preparados para enfrentar os desafios do século XXI.

Edson Grandisoli
Diretor Educacional da Reconectta e Escolas pelo Clima



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